À sós consigo

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Não querer nada…

Quando nada te falta, ou pouco te incomoda o que todos querem para si, ou para ti. Viver à margem do que diz ser necessidade, a mídia, a sociedade e até a religião, a política e até o que se entende por família e felicidade. Quando não se tem essa necessidade, conforme dita-se a ciência e papeis sociais, assume-se um papel individualmente sólido e solitário que, quando ainda por cima é escolha, torna-se em demasiado inapto aos que te cercam.

É possível alguém querer ser só.

Na verdade, todos buscamos uma solitude entre o que é a relação com o outro e conosco mesmo. As vezes buscamos um estar à sós consigo, mas por vezes este espaço pede a retirada do próprio eu que se acomoda em nós. Nesse sentido é preciso despir quem somos como profissionais, tudo o que sabemos ou pensamos saber, tudo o que temos ou insistimos em privatizar (coisas, pessoas, ideais..) e por vezes, desnudos, na solitude, ainda há que se encontrar, no entanto encontra-se novo e desconhecido.

O que inquieta é encontrar alguém que ninguém conhece ou leva em consideração, afinal nos pedem o tempo todo aparências, conquistas, produções e reproduções do que, no fim, não chega perto de nada que procuramos, queremos ou somos. E embora nos encontremos nessa intimidade particular, ainda é difícil não corresponder ao que socialmente já somos e que para todos os outros e até para nós é a verdade mais real que se pode viver.

Enquanto caminhamos pelas ruas onde residem essas verdades, nos deparamos numa esquina com a insatisfação alheia e nossa própria, que quando estamos solteiros, nos querem casados; que quando filhos nos querem pais e quando pais nos querem profissionais e técnicos. Mais que isso, tentamos um malabarismo, por vezes desengonçados, na tentativa de fazer girar todas essas bolinhas no ar sem deixar nenhuma desabar, até que em um momento elas comecem a se retirar de nós, ou nos completem a ponto de nos retirarmos delas.

No final, nos percebemos rebeldes e decididos a nos tornarmos quem somos, seja lá quem queremos ser, ou nos pedem que sejamos.

No final ainda somos! O que querem ou deixaram de querer, mas querer nada, enquanto sozinhos e sentados numa calçada de uma ruazinha distante daquela avenida das verdades alheias e próprias, prédios centenários com pequenas reformas na estrutura normalmente apreciada e aceita pela população que caminha diariamente espelhando as vidraças desses prédios alumiados de uma perfeição incógnita; sim, nos distanciamos dela e nos sentamos numa calçada, limpa, porém livre inclusive de todas as verdades que em nosso habitat nos cercava. Nesse ponto onde estamos, não conhecemos as casas, as pessoas, do que são feitas e de que acreditam compartilhar e participar, pelo contrario, aqui somos nós num desconhecido modo de ser, longe do que outrora estávamos certos de fazer e acontecer. Essa calçada porém, te dá aquele espaço e momento que se procura na solidão do próprio encontro e não sabemos nos encontrar, somos tímidos no início, até procuramos o apoio da nossa celebre verdade, mas nessa calçada, somos apenas nós a sós, numa necessidade de ressentir e re-viver.

Essa renegociação com as verdades padronizadas ao nosso redor é algo que, ao longo do tempo, nos pede uma solidão conosco, ou mesmo essa retirada de nós mesmos, porque em dado momento somos bem mais que o “normal” nos oferece a ser, que aquilo, pelo qual nos reconhecemos, passamos a nos desconhecer. Logo quando esse “normal” se altera ou modifica, naturalmente e, às vezes, inconsciente, nos dirigimos àquela calçada, revestida de um completo nada em relação a tudo que já foi visto nas avenidas da verdade.

É bem real, que estamos a preencher essas ruelas donde nos encontramos com mais daquilo que outrora nos distanciamos, a busca pela segurança do que frequentemente nomeamos como confortável e belo, também pode ser inconsciente, todavia o caminho percorrido sempre em direção a essa ruazinha com a densidade do nada que bem fugimos por não conhecer, nos leva em dado momento a necessidade de tocar-nos em íntimo e primitivamente, nessa nova forma de ser.

Ser para além do que temos ou pensamos, ser bem mais do que fomos, ou somos. Essa ruazinha vai sempre existir, mas ao passo que nos dirigimos a ela o caminho é novamente povoado de sentidos e num momento, podemos apenas nos sentar e, mesmo numa avenida das verdades, nos encontrar a sós com uma espécie de verdade própria e que a cada dia desconhecemos por conhecer.