
O verão altera ritmos biológicos, ambientes e rotinas, e essas mudanças recaem sobre o humor de forma tão concreta quanto a sensação térmica que gruda na pele. Dias mais longos aumentam a exposição à luz natural e estimulam atividades ao ar livre, enquanto o calor intenso pode provocar exaustão, irritabilidade e queda da disposição. A ciência e as políticas públicas tratam do tema não só pelo desconforto físico, mas pelos efeitos na saúde mental; instituições internacionais lembram que os impactos negativos do calor são previsíveis e em grande parte evitáveis quando há preparo e gestão de risco adequados. Ao mesmo tempo, orientações de saúde pública no Brasil têm enfatizado prevenção de hipertermia, hidratação e cuidado com populações vulneráveis em ondas de calor, em um contexto de verões mais longos, secos e quentes em diversas regiões. Reconhecer essa ambivalência do verão, entre benefícios da luz e riscos do calor, é o primeiro passo para ajustar rotinas e proteger o bem-estar emocional ao longo da estação. Por isso, planejar a agenda com intervalos de repouso, priorizar ambientes ventilados, reduzir álcool e cafeína nas horas mais quentes e combinar momentos ao ar livre com pausas à sombra são atitudes simples que fazem diferença real no humor durante o verão, para mais pessoas.
Ritmos circadianos, luz e neurotransmissores
Luz e calor modulam o relógio biológico que sincroniza ciclos de sono e vigília, secreção hormonal e flutuações emocionais. Com dias mais longos, há maior estímulo luminoso sobre vias neurais que ajudam a calibrar serotonina e melatonina, neurotransmissores profundamente ligados ao humor e ao ritmo circadiano. Há também padrões sazonais de humor descritos clinicamente: além do conhecido quadro de inverno, existe o padrão de verão, menos comum, em que sintomas depressivos e ansiosos emergem nos meses quentes. Publicações do Instituto Nacional de Saúde Mental detalham que, no verão, os sintomas tendem a incluir insônia, agitação, ansiedade e perda de apetite, enquanto no inverno dominam sonolência excessiva e maior apetite por carboidratos. Tudo sugere a participação de alterações sazonais de serotonina e melatonina, alinhadas à duração do dia, com repercussões no humor e na motivação.
Calor, hidratação e irritabilidade
O calor intenso afeta diretamente a fisiologia e, por tabela, o humor. À medida que a temperatura sobe, aumentam a sudorese e a vasodilatação, com perda de líquidos e eletrólitos que pode gerar fadiga, cefaleia, tontura e menor tolerância a frustrações do cotidiano. As autoridades paulistas são taxativas ao orientar a população durante ondas de calor: “o ideal é ingerir água, realizar refeições leves, usar roupas confortáveis, protetor solar e evitar a prática de atividades físicas no período de sol intenso, das 10h às 16h”. Essa diretriz simples protege corpo e mente, porque reduz estresse térmico e ajuda a manter atenção e estabilidade emocional em dias muito quentes. Em síntese, minimizar desidratação e exposição solar nas horas críticas preserva bem-estar e evita a espiral de cansaço, irritação e queda de produtividade típica de verões extremos.
Sono de verão e humor
Dormir bem no verão é um desafio decisivo para o humor. Noites mais quentes dificultam a dissipação de calor corporal necessária para iniciar e manter o sono, a luz matinal mais precoce antecipa despertares e a vida social intensa pode levar a horários irregulares. A restrição crônica de sono amplifica a reatividade emocional, piora a ansiedade e reduz a tolerância a contratempos, criando um ciclo que impacta relações e desempenho. Relatos clínicos sobre o padrão sazonal de verão descrevem insônia e inquietação como queixas frequentes, coerentes com o aumento de temperatura e de luminosidade, o que reforça a prioridade de ajustar o ambiente noturno. Entre medidas úteis estão resfriar o quarto antes de deitar, bloquear luz externa, evitar telas nas últimas horas e preferir rotinas de sono mais constantes mesmo em férias, protegendo humor e atenção no dia seguinte.
Atividade física e socialização com segurança
A estação oferece oportunidades potentes de regulação do humor por meio de movimento e conexão social, desde que com segurança térmica. A atividade física moderada melhora o sono subsequente, libera mediadores ligados ao bem-estar e aumenta a autoeficácia, enquanto encontros com amigos e família reduzem a solidão e criam redes de apoio afetivo. Porém, é preciso ajustar a exposição ao calor para que o benefício não se perca no excesso. De acordo com o Governo do Estado de São Paulo, sobre exercícios no verão, “a orientação é se exercitar no início da manhã ou final da tarde quando o calor está ameno”, além de considerar ambientes fechados e ventilados quando necessário. Esse cuidado permite manter os ganhos do exercício para o humor evitando picos de temperatura que favorecem irritabilidade, mau desempenho e risco de mal-estar.
Quando o verão piora a ansiedade: o padrão sazonal de verão
Embora se fale mais de tristeza no inverno, há um padrão sazonal de verão que merece visibilidade. Materiais do NIMH indicam que, nos meses quentes, algumas pessoas podem apresentar insônia, inquietação, ansiedade acentuada, comportamento agressivo e redução do apetite, um conjunto que difere do perfil do inverno e exige atenção clínica, principalmente quando há prejuízo funcional. Trata-se de uma interação entre luz prolongada, temperatura elevada e desregulação de ritmos hormonais, com impactos em controle emocional e impulsividade. Reconhecer esse padrão é útil para ajustar cuidados: buscar ambientes mais frescos ao anoitecer, reduzir estimulantes, programar descanso após picos de calor e, se necessário, procurar acompanhamento psicológico. Se os sintomas forem persistentes ou intensos, a avaliação profissional é crucial para definir estratégias terapêuticas baseadas em evidências.
Estratégias práticas e políticas públicas
No plano coletivo, o calor extremo pressiona serviços de saúde e agrava desigualdades, ampliando riscos ao bem-estar emocional. A OMS enfatiza que os impactos negativos do calor são previsíveis e preveníveis quando há políticas e intervenções multissetoriais, como planos de contingência, sistemas de alerta precoce, comunicação de risco e proteção a grupos vulneráveis. No nível individual, valida-se o autocuidado consagrado nas orientações locais. Como resume a Prefeitura de São Paulo, “a melhor forma de se proteger é evitando a exposição e a prática de atividades físicas ao sol, especialmente nos horários entre 10h e 16h, além da ingestão adequada de líquidos”, diretriz que serve também à saúde mental ao reduzir estresse térmico e fadiga. Uma cultura de verão saudável combina infraestrutura urbana e escolhas pessoais: sombra, água, pausas programadas, sono preservado e redes de apoio para que a estação some vitalidade sem cobrar um preço emocional.
Dizer que o verão é sinônimo de alegria para todos seria esquecer a diversidade de corpos, rotinas e territórios. A estação pode ser um catalisador de bem-estar quando a luz estimula o convívio, o movimento e a criatividade, mas pode também acentuar ansiedade e impaciência quando somada a noites mal dormidas, desidratação e excesso de compromissos. A boa notícia é que grande parte desses efeitos é modulável por decisões simples ancoradas em evidências e em recomendações oficiais, do ajuste de horários ao reforço da hidratação, da higiene do sono à busca de apoio quando necessário. De acordo com orientações públicas brasileiras e internacionais, prevenção e preparação são chaves para atravessar ondas de calor com segurança. Com informação confiável, planejamento e autocuidado, cada pessoa pode desenhar um verão que favoreça o humor, preserve a saúde mental e deixe como lembrança não o cansaço, mas a sensação de vigor e pertencimento.
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Fontes:
https://infocenter.nimh.nih.gov/sites/default/files/publications/seasonal-affective-disorder.pdf
https://www.nimh.nih.gov/health/publications/seasonal-affective-disorder
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-heat-and-health




