Tempo medicinal para a pandemia de insensatez

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A doença se manifesta de modo semelhante, em doentes que sempre são diferentes. É por esta razão que a atividade médica não se esgota no fazer diagnósticos e tratar doenças. A atividade clínica requer um manejo com arte, no uso do tempo, na imprescindível paciência em busca do diagnóstico e, principalmente, na relação com o paciente. A observação empírica da pessoa ao longo do tempo é a raiz mais profunda da atividade clínica. É um poderoso recurso elucidativo, gerando respostas que, invariavelmente, esclarecem diagnósticos complexos. Sintomas e sinais, anormalidades de parâmetros biológicos e alterações em imagens radiológicas precisam e devem ser observados e interpretados à luz do tempo, além de se considerar as singularidades da pessoa humana.

A maravilhosa oferta de tecnologias tem deslumbrado os profissionais de saúde. Inúmeras diretrizes têm sido traçadas e revisadas em função da incorporação de inovações técnicas. Vislumbram-se muitas possibilidades da prematuridade de diagnósticos que, uma vez estabelecidos, possam alterar os prognósticos favorecendo a perene preservação de uma boa saúde. Implantou-se, assim, uma lógica baseada na hipótese de que a detecção precoce previne o desenvolvimento de doenças e assegura a longevidade sadia. Orientada por modelos de rastreamento, a medicina passou a determinar diagnósticos antes mesmo das manifestações da enfermidade. Foram desenvolvidos mecanismos para identificar doenças sem sintomas. Adotou-se o paradigma do rastreamento, que autoriza o médico a tornar doentes e tratar pessoas que não se sentem enfermas, respaldado em uma promessa de mudança para um melhor desfecho das patologias rastreadas.

O discurso da prevenção e da mudança do foco na doença para o foco na saúde passou a ser usado para fundamentar os check-ups de rastreamento. Entretanto, há algo um tanto estranho nisso! “Foco na saúde” baseado em diagnósticos de “doenças silenciosas”? Neste cenário, uma questão precisa ser colocada: tal forma de prevenir é melhor do que remediar? E, além disso, há outra questão muito importante: qual a razão para esta pergunta estar sendo negligenciada? O porquê da ausência deste questionamento na atividade clínica, no contexto onde o exame clínico, a conversa, o contato e tudo que é importante para se estabelecer a relação médico-paciente fica ofuscado.

Uma formação médica radicalmente calcada no uso de tecnologia produz profissionais com limitações. A prática clínica fica cerceada ao restrito mundo das doenças dentro da exuberante diversidade da vida, e a atuação médica pauta-se no reducionismo.  Paradoxalmente, os equívocos diagnósticos podem ter a frequência amplificada, tendo em vista que os erros não se limitam somente à imperícia em concebe-los. Há também os erros decorrentes da inabilidade em se adequar o diagnóstico ao indivíduo e ao contexto singular de cada vida e, ainda, há aqueles relacionados à imprudência nos diagnósticos decorrentes da hiper-valoração das anormalidades nos exames. O homo sapiens já tem experiência suficiente para saber o poder de dano que a tecnologia tem em mãos negligentes.

Interagir com ser humano e não com seu rótulo, tratar o doente e não a doença, são formas de atuação que precisam inspirar o médico. Os diagnósticos, quando contextualizados à luz da particularidade do indivíduo, podem ter a dimensão e a importância transfiguradas, permitindo uma nova leitura da doença.

Faz-se necessário ponderar que a determinação de diagnósticos sem a enfermidade clínica, por meio do rastreamento, não é uma conduta inócua que possa ser adotada indiscriminadamente. Os equívocos na rotulagem de doentes têm gerado exageros terapêuticos, além de provocar adoecimento em quem gozava de saúde e não estaria sujeito ao risco pressuposto. Isto tem ocorrido em uma proporção considerável. 

É relevante acrescentar que os desperdícios e abusos difamados no sistema da saúde são viabilizados e até estimulados por este modelo clínico. É assim que, diante da necessidade controlar as consequências das condições crônicas, disseminou-se ações puramente técnicas de investigação e detecção de anormalidades biológicas que ganhou a proporção de uma pandemia de insensatez, com baixa efetividade no que tange aos reais benefícios à saúde em seu sentido mais amplo.

É difícil crer numa forma de recuperar o nosso sistema da saúde sem rever a lógica presente no raciocínio clínico tecnicista hegemônico, que é apressado, frenético, reducionista e inumano. Não se trata de denunciar que há um conflito entre os avanços tecnológicos e a atividade clínica. São recursos complementares preciosos e imprescindíveis. Se há um erro, é supor que um pode substituir o outro. A questão essencial é observar o que tem se desnudado diante das inovações técnicas. A primeira é um certo fascínio infantilizado pelas máquinas. A segunda é a negligência quanto ao imponderável: afetos, intuição, respeito; coisas tipicamente humanas.

Encontrar um entendimento harmonioso entre o método clínico e o aparato técnico poderá ser o grande segredo de sucesso para um futuro modelo de atenção à saúde.

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